Opinião/Pontos de Vista

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Artigos, Política, Crônicas, Arte, Prosa & Verso

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LETRA ILEGÍVEL: SÉRIO PROBLEMA MÉDICO

Uma das principais preocupações do século XXI é o processo de envelhecimento populacional que está impactando de forma assustadora os sistemas de saúde e de previdência social em todo mundo.Por Dr. ANTONIO MONTEIRO

  As estimativas revelam que no ano 2025 o Brasil terá a 6ª maior população de idosos do planeta, com todos os problemas que esse fato poderá trazer, se não tomarmos desde já medidas capazes de garantir a viabilidade desse futuro.

  Esse envelhecimento acelerado e irreversível está trazendo como uma das consequências o rápido aumento das chamadas doenças crônicas degenerativas, como hipertensão arterial, diabetes, artroses, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, as quais demandam tratamentos contínuos e vitalícios, com inúmeros medicamentos, exames e outros procedimentos.

  É claro que pessoas acometidas dessas doenças necessitam de assistência médica frequente para acompanhamento de seus quadros clínicos e adequações em seus tratamentos, para que sigam suas vidas com o mínimo de qualidade desejável.

  Esse acompanhamento, entretanto, para que seja feito de forma eficiente e eficaz, necessita de registros precisos e completos que constituem a história de saúde desses doentes permitindo a visualização da evolução do processo.

  Aqui surge um grande problema, que a meu ver é uma vergonha para nós médicos: a letra ilegível e anotações incompletas.

  Infelizmente não é raro que pessoas procurem um funcionário de uma Unidade de Saúde para ver se tem determinado medicamento receitado por um médico e ninguém na equipe consiga decifrar o que está escrito na receita!

Repetir perguntas

  Outras vezes um cliente que é acompanhado num serviço médico por um problema crônico há muito tempo, ao voltar em consulta com outro médico, esse é obrigado a repetir perguntas que o paciente já respondeu várias vezes e fica sem saber que medicamentos essa pessoa está tomando, ou que exames realizou, porque não existe qualquer registro desses procedimentos no prontuário desse paciente!

  Registros médicos e receitas só tem sentido se puderem ser lidos e entendidos pelas pessoas a quem interessam. Isso é tão óbvio que o Código de Ética Médica diz que é proibido ao médico fazer anotações ilegíveis, sob pena de punições previstas nesse código.

  Recentemente os meios de comunicação do País voltaram a esse assunto dizendo que os Conselhos seriam mais rígidos com esse problema, mas na prática o que se tem observado é que esses absurdos continuam sendo praticados com muita frequência e pouco tem sido feito em relação a eliminar definitivamente essa marca vergonhosa da nossa profissão.

  Alguns estados brasileiros chegaram a elaborar leis com previsão de multas aos profissionais que não cumprissem essa determinação, mas, mesmo assim, o impacto ainda deixa a desejar.

  Em 2006, um levantamento do National Academies of Science Institute of Medicine, nos Estados Unidos da America, revelou que cerca de 7 mil pessoas morrem por ano naquele país, vítimas de anotações médicas inadequadas.

Alguns absurdos

  Se alguém acha que essa é uma acusação mesquinha e sem fundamento contra minha própria classe profissional, informo que, em meu computador pessoal, tenho uma pasta específica com fotos de inúmeras receitas e prontuários médicos com alguns absurdos mais relevantes, inclusive com prontuários em que numa consulta existe carimbo e assinatura do médico sem qualquer anotação anterior!

  Acredito que a população tem que aprender seus direitos e deveres e exigir de seus médicos anotações claras e precisas sobre suas condições de saúde.

  Medicina não é ciência exata e por isso necessita ainda mais de informações completas e organizadas para tomar decisões cuja falha pode acarretar em lesões ou até na morte de seres humanos.

  Por isso, meu amigo, muito mais do que Conselhos ou governos, o principal interessado nesse problema é você e, portanto, é seu direito e dever exigir qualidade dos seus registros médicos e, se não for atendido, denunciar aos órgãos competentes, como você já aprendeu a fazer usando o PROCON quando se sente lesado em alguma transação comercial.

  Afinal, sua vida e saúde são muito mais importantes que qualquer aparelho doméstico que não funcione, não é?

  Pense sobre isso.

•ANTONIO MONTEIRO é médico preventivista e clínico geral formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

(Foto: Reprodução / Publicado em 03/08/18)

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É A MORTE, PIOR QUE PAGA!

A franquia dos planos de saúde, como a dos automóveis, será estendida a inúmeras situaçõesPor ANTONIO CARLOS LOPES

 Em março de 2017, portanto, há mais de um ano, a Sociedade Brasileira de Clínica Médica e órgãos de Defesa do Consumidor, como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), alertavam a população que o Governo Federal, trabalhava com a estratégia de implodir a Lei 9656, de 1998. A dita Lei garante os direitos dos pacientes de planos de saúde e normatiza o setor suplementar.

 Dias atrás, o que era ajustado em silêncio nos gabinetes do Distrito Federal, ganhou a mídia como manchetes. Existe, de fato, toda uma estratégia para impingir aos cidadãos uma conta que não lhes cabe, arcando com franquia quando da utilização dos planos e seguros de saúde, para os quais, aliás, já pagam mensalidades exorbitantes, corrigidas sempre acima dos índices inflacionários.

 Agora, é público que, a partir do segundo semestre do 2018, as empresas de assistência suplementar estarão permitidas a cobrar dos pacientes valor equivalente ao da mensalidade, em diversas situações.  Por exemplo, se você necessitar mais de quatro consultas ao ano terá de desembolsar um extra, dependendo do plano que possui.

 A franquia, como a dos automóveis, será estendida a inúmeras situações. O impacto que o consumidor (a parte mais vulnerável economicamente) sentirá em seu bolso talvez se assemelhe a uma batida de um carro popular com um caminhão de grande porte. As mulheres, só para citar rápidos flashes serão forçadas, pela legislação proposta, a tirar umas notas a mais da bolsa, caso precisem de mais de uma mamografia a cada dois anos e estejam na faixa entre 40 e 65 anos.

O paciente, muitas vezes, terá de arcar com uma parte dos custos

 Os obstáculos também estarão no caminho na hora de um teste de HIV e sífilis, ou até para os cinquentenários que só poderão fazer um exame de glicemia a cada doze meses.

 Será, repito, uma espécie de coparticipação, em que o paciente, muitas vezes, terá de arcar com uma parte dos custos de procedimentos e consultas toda vez que utilizar seu plano de saúde.

 Não é só. Outra proposta condenável, em estudo na ANS/Ministério da Saúde, visa ressuscitar planos de saúde de cobertura limitada, ironicamente batizados de "populares”.

 Os tratamentos de alta complexidade, mais onerosos, ficariam por conta do Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que o plano “popular” se restringirá apenas ao atendimento básico. Excelente negócio para os convênios, mas um enorme retrocesso para a Saúde.

 É bom lembrar que os planos de saúde lideraram o ranking de reclamações recebidas pelo Idec há anos. Na mais recente divulgação, registravam 23,4% das queixas, superando setores como os de produtos (17,8%), serviços financeiros (16,7%) e telecomunicações (15,8%).

 Houve o tempo em que pagávamos uma mensalidade de plano de saúde, focando do futuro, em ter bons médicos, ótimos hospitais, laboratórios de ponta e outros serviços em momentos ruins. Hoje, vivemos o momento ruim. É quase como ser assaltado pela morte e não poder reagir. Mas reagiremos.

•DR. ANTONIO CARLOS LOPES é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

(Publicado em 25/04/18)

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EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA: OS LIMITES DA ÉTICA E DA JUSTIÇA

No Brasil, e em qualquer parte do mundo, os médicos se deparam frequentemente com situações conflituosas.

Por ANTÔNIO CARLOS LOPES

 Tive recentemente a honra de lançar a terceira edição do livro “Eutanásia, Ortotanásia e Distanásia”. É uma obra totalmente atualizada que busca jogar luz sobre assunto polêmico que envolve não só a área médica e os pacientes. Tem interferência direta do campo jurídico.

 No Brasil, e em qualquer parte do mundo, os médicos se deparam frequentemente com situações conflituosas. Boa parte delas envolve aspectos éticos, profissionais, religiosos e jurídicos. Entre eles merece especial menção a ortotanásia,  chamada também de morte suave, sem dor.

 Há quatro anos, o Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou por unanimidade Resolução abordando a suspensão de procedimentos e tratamentos que permitem o prolongamento da vida em fase terminal de enfermidades graves e incuráveis.

 Preocupado com a ortotanásia e conhecedor da prática médica, o CFM definiu limites para a atuação do profissional de medicina nos casos em que o prolongamento da vida do paciente implica em sofrimento e tem prognóstico fechado.

A questão da jurisprudência

 É preciso registrar, porém, que de acordo com a jurisprudência, o paciente tem direito a tudo, ou melhor, a quase tudo. Tem direito à vida, mas não pode escolher como deseja morrer.

 Sempre alertamos os médicos de que o código penal do Brasil não acompanha a evolução da medicina. Portanto, independentemente da existência de uma resolução do CFM ainda podem ocorrer inúmeros problemas.

 Segundo nosso código de leis, o parecer do CFM não pode ser aceita no campo da legalidade, pois coloca o médico em risco judicial. As esferas civil e penal têm muito mais força do que qualquer órgão de classe. No exercício diário da medicina nos deparamos com situações clínicas irreversíveis tanto sob o ponto de vista médico, quanto ético e moral. É proibitivo deixar de dar continuidade ao tratamento, mesmo com a Resolução do Conselho.

Descompasso evidente

 O descompasso entre o progresso da medicina e a legislação é evidente e demonstra uma enorme ineficiência. A ciência disponibiliza aos médicos aparelhos e arsenal terapêutico de última geração, recursos capazes de prolongar a vida por longo período. Porém, há de se levar em consideração o quanto a sociedade é onerada, além do desgaste emocional de familiares, e até mesmo o sofrimento do doente.

 Considerando que “não se justifica prolongar um sofrimento desnecessário, em detrimento à qualidade de vida do ser humano”, o Conselho Federal de Medicina, há alguns anos publicou a resolução 1995. Versa sobre a validade do Testamento Vital, e define três questões: a decisão do paciente deve ser feita antecipadamente, isto é, antes de ingressar na fase critica; o paciente ao decidir deve estar plenamente consciente; sua manifestação prevalece sobre a vontade dos parentes e dos médicos que o assistem. O desejo do doente, registrado em cartório, acaba por dispensar tratamento inútil, agressivo, oneroso à sociedade, e evita a dolorosa distância da família.

 Faz-se necessário que o judiciário se modernize. O Brasil precisa que leis acompanhem a evolução na medicina.

ANTÔNIO CARLOS LOPES é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

(Foto: Reprodução / Publicado em 23/12/17)

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CURA GAY: COBAIAS DE UM TRATAMENTO COM GARANTIA CIENTÍFICA DE NÃO FUNCIONAR

Por DANILO LEONARDI

Quando me assumi gay para meus pais, lá em 2002, uma das primeiras coisas que eles disseram foi que seria uma boa ideia eu visitar um psicólogo.

 Ser gay não era uma declaração que se fizesse tão frequentemente naquela época, ainda mais aos 15 anos e sem qualquer experiência sexual prévia. Somado ao fato de que eu era socialmente inadequado e sofria segregação por colegas da escola, meus pais queriam ter certeza absoluta de que eu não estava enganado.

 Eles queriam garantias de que eu não estava levantando uma bandeira que iria apenas dificultar minha vida para depois descobrir que tudo havia sido um mal-entendido.

 Não me assustei. Desde cedo fui bem informado sobre o que esperar de uma consulta ao psicólogo; quais eram os códigos de ética que eles seguiam, o que poderia ou não acontecer dentro de um consultório. E um dos motivos pelos quais estive bem tranquilo, foi a garantia de que meu terapeuta teria a obrigação de reconhecer minha orientação sexual como algo natural.

 Para muitos conhecidos, homossexualidade era sinônimo de perversão. Pessoas homossexuais tinham se tornado assim por diversos motivos folclóricos, como ter uma mãe dominadora, falta de apanhar, ausência de bússola moral ou simples má índole.

 Acima de tudo, para essas pessoas, ser gay jamais poderia ser motivo de orgulho. Uma pessoa acometida por esta orientação deveria buscar ajuda e fazer o possível para se enquadrar no padrão heterossexual, caso contrário estaria condenada à infelicidade e ostracismo.

 O psicólogo, no entanto, tinha o papel de discutir o preconceito, proporcionar condições de aceitação e aumento da autoestima, independente de seu próprio código moral. Ao menos no papel. Ao menos de acordo com a Resolução 001/1990 do Conselho Federal de Psicologia, que proibia a terapia de reversão sexual.

 Eis que agora o papel foi trocado. Ou melhor: reinterpretado.

“Orientação sexual não é uma característica passível de mudança mediante procedimentos”

 No dia 15 de setembro de 2017, uma liminar foi assinada pelo MM. Juiz Federal Waldemar Cláudio de Carvalho. Enquanto ela não suspende a Resolução do Conselho, ainda assim permite aos psicólogos não apenas pesquisar possibilidades de reorientação sexual, comumente chamada de cura gay, mas também atender a pacientes com este propósito.

 Não me entenda mal: sou totalmente a favor das liberdades individuais. Desde que aquilo não afete terceiros, por que alguém deveria se importar? E a resposta é que, para mim, esta decisão nos afeta a todos, como sociedade.

 Trabalhos científicos rigorosos já foram publicados sobre o assunto (por exemplo Birk, Huddleston, Miller, & Cohler, 1971; James, 1978; McConaghy, 1969, 1976; McConaghy, Proctor, & Barr, 1972; Tanner, 1974, 1975) e descobriram que orientação sexual não é uma característica passível de mudança mediante procedimentos.

 Assim sendo, a psicologia oferecer tratamentos referentes a reorientação sexual nada mais é que charlatanismo. Comparável a um oncologista prometer a cura do câncer a partir do poder das fadas e ser aceito como um tratamento médico ortodoxo.

 Ou seja, significa usar pessoas como cobaias de um tratamento com garantia científica de não funcionar. Indo além, esta liminar empodera pessoas que enxergam homossexualidade como uma doença e fragiliza pessoas que já estão vulneráveis por conta da homofobia vigente.

 O Juiz falhou em observar que sua decisão prioriza a curiosidade de pesquisadores ineptos em detrimento do bem-estar das pessoas que a psicologia deveria proteger. E que por valorizar a liberdade individual, gerou um problema social que em sua ignorância não teria capacidade de prever.

DANILO LEONARDI, autor do livro “Coisas Inatingíveis”, onde aborda a questão e mostra alguns métodos que são comumente utilizados nestes tipos de tratamentos, é ativista da causa LGBT.

(Foto: Divulgação / Publicado em 24/09/17)

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A RELAÇÃO ENTRE AS MENTES MAIS BRILHANTES E A SOLIDÃO

Silvia Díez, do El País

As pessoas são seres sociais, mas depois de passar o dia rodeadas de gente, de reunião em reunião, atentas às redes sociais e ao celular, hiperativas e hiperconectadas, a solidão oferece um espaço de repouso capaz de curar. Confira o que dizem estudos acadêmicos e especialistas sobre os meandros da autoconsciência e da análise interior

Segundo o professor Robert Lang, da Universidade de Nevada (Las Vegas), especialista em dinâmicas sociais, muitos de nós acabarão vivendo sozinhos em algum momento, porque a cada dia nos casamos mais tarde, a taxa de divórcio aumenta, e as pessoas vivem mais. A prosperidade também incentiva esse estilo de vida, escolhido na maioria dos casos voluntariamente, pelo luxo que representa.

A jornalista Maruja Torres, em sua autobiografia, Mujer en Guerra (da editora Planeta España, não publicada em português), já se vangloriava do prazer que lhe dava cair na cama e dormir sozinha, com pernas e braços em X. A isso se soma a comodidade de dispor do sofá, poder trocar de canal sem ter que negociar, improvisar planos sem avisar nem dar explicações, andar pela casa de qualquer jeito, comer a qualquer hora…

Como se fosse pouco, o sociólogo Eric Klinenberg, da Universidade de Nova York, autor do estudo GOING SOLO: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone (ficando só: o extraordinário aumento e surpreendente apelo de viver sozinho, em tradução livre), está convencido de que viver só significa, também, desfrutar de relações com mais qualidade, já que a maioria dos solteiros vê claramente que a solidão é muito melhor que se sentir mal-acompanhado. Há até estudos que asseguram que a solidão facilita o desenvolvimento da empatia. Outra socióloga, Erin Cornwell, da Universidade Cornell, em Ítaca (Nova York), concluiu, depois de diversas análises, que pessoas com mais de 35 anos que moram sozinhas têm maior probabilidade de sair com amigos que as que vivem como casais. O mesmo acontece com as pessoas adultas que, embora vivendo sozinhas, têm uma rede social de amizades tão grande ou maior que a das pessoas da mesma idade que vivem acompanhadas. É a conclusão do estudo feito pelo sociólogo Benjamin Cornwell publicado na American Sociological Review.

A base da criatividade e da inovação

As pessoas são seres sociais, mas depois de passar o dia rodeadas de gente, de reunião em reunião, atentas às redes sociais e ao celular, hiperativas e hiperconectadas, a solidão oferece um espaço de repouso capaz de curar. Uma das conclusões mais surpreendentes é que a solidão é fundamental para a criatividade, a inovação e a boa liderança. Estudo realizado em 1994 por Mihaly Csikszentmihalyi (o grande psicólogo da felicidade) comprovou que os adolescentes que não aguentam a solidão são incapazes de desenvolver seu talento criativo.

Susan Cain, autora do livro Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking (silêncio: o poder dos introvertidos num mundo que não consegue parar de falar), cuja conferência na plataforma de ideias TED Talks é uma das favoritas de Bill Gates, defende ao extremo a riqueza criativa que surge da solidão e pede, pelo bem de todos, que se pratique a introversão. “Sempre me disseram que eu deveria ser mais aberta, embora eu sentisse que ser introvertida não era algo ruim. Durante anos fui a bares lotados, muitos introvertidos fazem isso, o que representa uma perda de criatividade e de liderança que nossa sociedade não pode se permitir. Temos a crença de que toda criatividade e produtividade vem de um lugar particularmente sociável. Só que a solidão é o ingrediente essencial da criatividade. Darwin fazia longas caminhadas pelo bosque e recusava enfaticamente convites para festas. Steve Wozniak inventou o primeiro computador Apple sentado sozinho em um cubículo na Hewlett Packard, onde então trabalhava. Solidão é importante. Para algumas pessoas, inclusive, é o ar que respiram.”

Cain lembra que quando estão rodeadas de gente, as pessoas se limitam a seguir as crenças dos outros, para não romper a dinâmica do grupo. A solidão, por sua vez, significa se abrir ao pensamento próprio e original. Reclama que as sociedades ocidentais privilegiam a pessoa ativa à contemplativa. E pede: “Parem a loucura do trabalho constante em equipe. Vão ao deserto para ter suas próprias revelações”.

A conquista da liberdade

“Só quando estou sozinha me sinto totalmente livre. Reencontro-me comigo mesma e isso é agradável e reparador. É certo que, por inércia, quanto menos só se está, mais difícil é ficá-lo. Mesmo assim, em uma sociedade que obriga a ser enormemente dependente do que é externo, os espaços de solidão representam a única possibilidade se fazer contato novamente consigo. É um movimento de contração necessário para recuperar o equilíbrio”, diz Mireia Darder, autora do livro Nascidas para o Prazer (Ed. Rigden, não publicado em português).

Também o grande filósofo do momento, Byung-Chul Han, autor de A Sociedade do Cansaço (Ed. Relogio D’Agua, de Portugal), defende a necessidade de recuperar nossa capacidade contemplativa para compensar nossa hiperatividade destrutiva. Segundo esse autor, somente tolerando o tédio e o vácuo seremos capazes de desenvolver algo novo e de nos desintoxicarmos de um mundo cheio de estímulos e de sobrecarga informativa. Byung-Chul Han preza as palavras de Catão: “Esquecemos que ninguém está mais ativo do que quando não faz nada, nunca está menos sozinho do que quando está consigo mesmo”.

Autoconsciência e análise interior

“Para mim a solidão representa a oportunidade de revisar nosso gerenciamento, de projetar o futuro e avaliar a qualidade dos vínculos que construímos. É um espaço para executar uma auditoria existencial e perguntar o que é essencial para nós, além das exigências do ambiente social”, diz o filósofo Francesc Torralba, autor de A Arte de Ficar Só (Ed. Milenio) e diretor da cátedra Ethos da Universidade Ramon Llull. Na solidão deixamos esse espaço em branco para ouvir sem interferências o que sentimos e precisamos. “A solidão nos dá medo porque com ela caem todas as máscaras. Vivemos sempre mantendo as aparências, em busca de reconhecimento, mas raramente tiramos tempo para olhar para dentro”, diz Torralba.

Na verdade, a solidão desperta o medo porque costuma ser associada ao vazio e à tristeza, especialmente quando é postergada longamente por uma atividade frenética e anestesiante. Para Mireia Darder, é bom enfrentar esse momento tendo em mente que a tristeza resulta simplesmente do fato de se soltar depois de tanta tensão e de ter feito um esforço enorme para aparentar força e suportar a pressão frente aos que nos cercam. “Não se pode esquecer que para ser realmente independente é preciso aprender a passar pela solidão. O amor não é o contrário da solidão, e sim a solidão compartilhada”, diz Darder.

Em nossa sociedade, a inatividade —que surge com frequência da solidão— é temida e desperta a culpa. Fomos preparados para a ação e para fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas é quando estamos sozinhos que podemos refletir sobre o que fazemos e como o fazemos. O escritor Irvin Yalom, titular de Psiquiatria na Universidade de Stanford, confessava que desde que tinha consciência se sentia “assustado pelos espaços vazios” de seu eu interior. “E minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de outras pessoas. De fato detesto os que me privam da solidão e além disso não me fazem companhia.” Algo que, segundo Francesc Torralba, é muito frequente: “Embora estejamos cercados de gente e de formas de comunicação, há um alto grau de isolamento. Não existe sensação pior de solidão que aquela que se experimenta ao estar em casal ou com gente”.

 

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